Um sonho
Eu tenho um sonho. Que a arte do Bonsai seja difundida por todo o país, que os mitos caiam e que nossos artistas sejam reconhecidos a nível mundial. Utopia? Talvez, talvez… Mas se não conseguirmos alcançar esse nível, podemos pelo menos chegar perto o suficiente para que os próximos bonsaístas consigam continuar o caminho, certo? Mas por que estou falando isso por aqui?
Somos um país um tanto quanto complicado, isso já é de conhecimento geral e não preciso ficar explicando por aqui. Temos o incansável hábito de desvalorizar o que não compreendemos e/ou não conseguimos fazer, então quando vemos alguém fazendo malabarismo com 5 ou 6 bolas, não hesitamos em dizer: “Ahh, é só ficar jogando bolinha pro ar?“, ou quando vemos alguém podando um bonsai falamos: “Mas é só isso? Só cortar com essa tesourinha? Por que custa tão caro então?“, sem perceber que ao falarmos assim, estamos desconsiderando todos os anos de estudo e prática que levaram aquele bonsaísta a saber cortar aquele determinado galho.
É a mesma história, em qualquer profissão: Quem está pagando sempre questiona o porque daquele valor, por achar que está sempre levando desvantagem na relação. Não posso generalizar esse comportamento a nível mundial, mas creio que não seja uma particularidade brasileira, as pessoas não entendem que não basta saber apertar um parafuso, é preciso saber QUAL parafuso apertar.
Claro que existem exceções, pessoas que valorizam o trabalho alheio, seja qual for, mas no geral ainda existe muito preconceito em diversas áreas, talvez por termos a péssima mania de acharmos que temos que ser sempre melhores que os outros, um complexo de inferioridade que era visto claramente quando enchíamos a boca para falar que o Maracanã era o maior estádio de futebol do mundo, ignorando se a economia do país estava quebrada, se éramos recordistas em analfabetismo ou se possuíamos os piores hospitais do mundo.
Nesse pouco tempo de blog já conheci diversos profissionais da área (bonsaístas em geral, sem diferenciar mestres ou aprendizes), alguns mais sérios que outros mas todos, sem exceção, são sub-valorizados se comparados com a realidade internacional. Realidades diferentes não podem ser comparadas, eu sei disso e entendo perfeitamente que cada país tem suas próprias características mas, mesmo com realidades diferentes, bonsaístas de Taiwan, Tailândia, Uruguai etc. são projetados internacionalmente. Qual a diferença então? Somos piores que a Tailândia? Que o Uruguai?
A diferença é que ainda estamos engatinhando na prática do bonsai, seja pelo tempo de existência da arte em nosso país ou pelos caminhos que optamos por trilhar. Mas nosso problema é muito maior do que a simples escolha de um caminho, a questão é: Por que escolhemos copiar, ou ao menos tentar, estilos japoneses para nossas plantas? Se as espécies trabalhadas por eles são tão diferentes das nossas, porque optamos por seguir o estilo japonês tradicional em nossas árvores nativas?
Esse é um assunto delicado e que gera muitas discussões mas, na maioria das vezes, a resposta dos que não querem se adaptar é a mesma: “Eles são os melhores do mundo, e foram eles que trouxeram a arte pra cá.” Não importa o quanto isso seja discutido lá fora, não importa nem que os próprios japoneses já tenham desenvolvido ainda mais suas técnicas, existe uma resistência absurda, uma força quase sobrenatural que nos impede de dar um passo a mais, continuamos sub-aproveitando nossas árvores nativas e babando pelos exemplares apresentados lá fora.
Porém, a real razão dessa atitude é bem mais complexa. Desde nossa colonização sofremos da síndrome do vira-lata, sempre querendo ser o melhor, mas ao mesmo tempo achando que os outros sempre farão melhor que nós. Achar que tudo que é importado é melhor, e que nunca chegaremos a tal nível… É preciso admirar os trabalhos dos outros, mas precisamos olhar para o nosso quintal também, e reconhecer que temos um caminho próprio a trilhar.
Ao fazer bonsai usando apenas os estilos exemplificados por John Naka em seus livros, que por sinal são uns dos melhores livros de bonsai escritos até hoje, você aprende muito com certeza, porém, se ficar fazendo apenas aqueles estilos, você ficará sempre repetindo trabalhos, pode se tornar um mestre naquelas formas, saber tudo que há para saber, distância entre galhos, ângulos de curvatura, mas estará fazendo sempre o mesmo trabalho. Em qualquer coisa que fazemos, devemos SEMPRE buscar a inovação, novas formas de se fazer a mesma coisa ou formas antigas de se fazer novas tarefas, o importante é pensar além, enxergar além e arriscar! É preciso arriscar na vida, no bonsai, na sua carreira, pois quando não arriscamos, não inovamos, ficamos presos sempre às mesmas tarefas, à mesma rotina e aos poucos vamos cansando e o que antes era excitante passa a ser chato e feito por obrigação.
O bonsai é uma arte em constante evolução, por isso devemos evoluir junto com ela. Diversos países discutem esses caminhos, na tentativa de criar uma identidade que diferencie seus bonsai do resto do mundo, e até mesmo o Japão vive se reinventando. Antigamente era complicado, um mestre fazia um bonsai do outro lado do mundo e você só ia saber disso quando alguém publicasse em uma revista ou algo similar, mas hoje não temos mais esse atraso. A internet deve ser usada a nosso favor, devemos conversar, consultar e trocar conhecimento com o mundo inteiro, seja na busca de sugestões ou apenas para mostrar um trabalho feito, do qual temos orgulho. A interação se faz necessária, caso contrário, ficaremos cada vez mais isolados, com um potencial gigantesco mas completamente sub-aproveitado.
Não sei se consegui me expressar bem nesse texto, mas aos poucos vou colocando minhas visões por aqui. Aconselho a todos que lêem este blog, que passem a pesquisar sobre bonsai de outros países, leiam sobre a Tailândia, Taiwan, Itália e todos os outros, observem os estilos, as formas que eles dão às árvores e como essa forma varia de espécie para espécie. Vamos voltar ao verdadeiro significado da filosofia do bonsai, que é miniaturizar a natureza, seja árvore ou paisagem.

Vinicius Costa Reply:
março 5th, 2009 at 12:06
Marco, realmente começo a acreditar que estamos chegando lá!
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