Qual a sua linha?
Prontos para um post-gigante? Então vamos lá…
Quando começamos a estudar a arte do bonsai com mais dedicação, aprendemos que existem diversas vertentes de estudo, o que antes era “simples” pode acabar se tornando confuso, caso não tenhamos um pouco de discernimento para escolher qual caminho seguir.
Se você está lendo esse texto, provavelmente já sabe um pouco sobre a origem do bonsai, então já compreende que sendo uma arte em constante evolução, alguns países tomaram a liberdade de adicionar suas idéias à ela. O Japão saiu na frente, tanto que hoje em dia, se alguém falar de bonsai perto de você, o Japão será o primeiro país que você pensará. Mas apesar disso, diversos outros países desenvolveram rapidamente sua própria forma de fazer bonsai.
A Tailândia, por exemplo, possui belíssimos exemplares de árvores que inclusive podemos encontrar com facilidade aqui no Brasil, como Ficus (aliás, o ficus é encontrado em quase todo mundo), Pithecolobium, Jabuticabeira, em sua maioria com um estilo mais parecido com o Chinês, de árvores frondosas e cheias, como essa foto abaixo, retirada do site Siam Bonsai:
Antes que o assunto fique confuso, vamos definir algumas coisas: O bonsai “surgiu” como arte na China, e depois foi para o Japão onde sofreu algumas mudanças. Todas as outras escolas surgiram a partir dessas duas principais, que possuem características distintas, como eu não tenho a pretensão de ser algum tipo de professor, vou tentar explicar de forma simples.
Cada país possui sua própria fauna/flora, e dependendo do clima daquele país as árvores crescem mais ou menos, com mais marcas de intempéries ou mais retas. O clima define também quais espécies são capazes de sobreviver ali. E apesar de relativamente próximos, Japão e China possuem grandes diferenças em sua fauna/flora, a começar pelas espécies predominantes.
No Japão, a espécie mais utilizada no início, era o Pinheiro Negro (Black Pine), que é facilmente encontrado na natureza por lá, nascendo em encostas, no alto de montanhas e nos paredões de pedra, sujeitos às ações dos ventos e chuvas, essas plantas já adquirem naturalmente o formato que eles desejam, são bonsai naturais, e pela quantidade de exemplos naturais que existe, essa espécie “caiu no gosto popular“, tanto que até hoje é considerada a melhor espécie por muitos bonsaístas. Muitas vezes, quando se fala em bonsai, as pessoas logo pensam na figura de um Pinheiro Negro, ou de um Junípero (Shimpaku), pois são os mais difundidos pelo ocidente.
Na China, a coisa muda um pouco de figura, a espécie mais utilizada (pelo menos inicialmente) era o Ulmus (Chinese Elm), uma árvore robusta, com copas cheias e folhas relativamente pequenas, permitindo uma grande versatilidade na hora de se modelar a planta.
Chineses preferem uma copa mais cheia, mais densa, fechada… Japoneses primam pela modelagem “perfeita” da árvore, com galhos ordenados e intercalados. Essa é uma forma generalista de vermos os dois países, óbvio que nem todos os bonsai japoneses são milimetricamente modelados, e nem todos os exemplares chineses são densos também, mas acho que essa idéia inicial servirá para que vocês entendam o que falarei a seguir.
O tempo passou, e o Japão difundiu muito mais a arte do que a China, até mesmo pela questão econômica (é bom lembrar que a China comunista ficou durante MUITO tempo fechada para o mundo, o que praticamente anulou o intercâmbio cultural entre povos), tanto que a Europa, em sua grande maioria, sofreu grande influência do bonsai japonês, com seus patamares e estruturas mais definidas, mas aos poucos os países vão buscando sua própria identidade e muitas vezes os bonsaístas resolvem voltar às origens para reaprender a fazer bonsai.
Ora, mas porque estou falando tudo isso?
É preciso escolher qual caminho seguir… De nada adianta você querer ser especialista em todos os estilos e escolas, você precisa de um foco, de uma linha para se guiar.
Aqui no Brasil ainda estamos no meio de um tiroteio de informações. Não existe uma escola definida, fazemos bonsai como vemos por aí, uns seguem a linha Japonesa, outros a linha Chinesa, outros não seguem linha nenhuma achando que bonsai é apenas colocar uma planta em um vaso raso. Todo mundo é livre para fazer o que bem entende, o problema são os Xiitas do bonsai. Pessoas que não compreendem que qualquer caminho diferente do seu, também pode ser válido e que ninguém é dono da verdade.
Há pouco tempo o Mestre Walter Pall esteve no Brasil, em um evento realizado pela Nipon Bonsai, o amigo e companheiro de blog Fabiano Costa, esteve presente no evento, e todos que estiveram comentam a mesma coisa. O tal Naturalistic Bonsai, uma escola (ou caminho) diferente, com fortes tendências Chinesas, mas que busca resgatar o real significado do bonsai, que não é ter o melhor e mais estruturado bonsai, e sim cuidar da árvore e ajudá-la a se desenvolver, respeitando sua estrutura, sem esvaziá-la.
Inicialmente, quando falamos de Naturalistic Bonsai, pode parecer “coisa de preguiçoso“, que não quer aramar as plantas, e acha que qualquer coisa está boa, mas não é assim, nada é simples assim. Mesmo na linha naturalística, é preciso eliminar ramos, tracionar galhos, a única diferença é que é você entende melhor a planta. Você pega um pinheiro, e vai tratá-lo como pinheiro, ou uma cerejeira, ou um pithecolobium, cada árvore tem sua identidade, cada árvore cresce de uma certa forma na natureza, então não existe motivos, na minha opinião, para você conduzir uma Calliandra como se ela fosse um Pinheiro Negro, entenderam? Essa é uma opinião pessoal, e não obrigo ninguém a segui-la.
Algumas pessoas têm medo de que se esse estilo se tornar popular, toda plantinha envasada será chamada de bonsai, mas diga-me… Que mal há em você chamar sua mudinha de bonsai? Ela vai morrer se você chamá-la assim? Eu, particularmente, não vejo problema algum. E não pensem que eu faço o mesmo com as minhas plantas, sou extremamente crítico comigo mesmo e afirmo que possuo poucos bonsai “prontos“, e muitos em treinamento, mas nem por isso eu saio por aí apontando dedos e dizendo que determinada planta não é bonsai e que a pessoa deveria ter vergonha de possuir tal exemplar.
Possuo amigos que pensam da mesma forma que eu, e os mesmos já foram muito discriminados por outras pessoas que se julgam mais sábias ou importantes no meio do bonsai. Eles afirmam que isso é um “deserviço à arte“, ora ora… Quem está afugentando mais praticantes da arte? Os que acolhem os novatos e aos poucos vão demonstrando que as mudinhas precisam se desenvolver, ou os que se recusam a ajudar os outros, muitas vezes os humilhando?
Enfim, todos são livres, certo? Até mesmo para ofender os outros. Isso é algo que vocês deverão se acostumar, existem pessoas que gostam de ridicularizar o trabalho alheio e, infelizmente, isso não acontece só com o bonsai. Parece ser uma necessidade do ser humano, não importa o que ele faça, sempre vai existir alguém que precisa atacar outras pessoas para se sentir “superior“. Quando escuto algo do gênero, ou algum iniciante vem até mim pedindo auxílio e relatando que teve dificuldade em conseguir ajuda de outras pessoas, eu procuro demonstrar um pouco da cultura original do bonsai, a arte de entrar em contato com a natureza, de guiar o crescimento da árvore sem pressa ou vaidades, sem julgar os outros. Talvez eu seja “Zen” demais, talvez não, isso não importa… Já que todos são livres, esse foi o caminho que eu escolhi.


Vinicius Costa Reply:
novembro 27th, 2008 at 9:48
Hehehehehe Ainda falta muita coisa pra aprender, antes de poder assumir essa responsabilidade de ensinar os outros
O que faço aqui é só compartilhar o que leio e estudo, mas existem perguntas que ainda não sei responder
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Nessinha Reply:
novembro 28th, 2008 at 10:28
Mas vc jah possui uma boa bagagem de conhecimento… E ng sabe tudo msm… Na verdade a aula eh tbém uma troca…
Vc eh um ótimo professor, pq tem paciência… e, principalmente, não responde qq coisa soh pra parecer q sabe tudo… vc eh humilde e inteligente, qdo não sabe ou tem alguma dúvida, primeiro estuda melhor o assunto, pesquina, pra dps responder. Isso eh saber passar conhecimento: humildade e sabedoria!
Ah! E sobre a Escola Brasileira… Eh uma idéia impossível de se concretizar???
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Vinicius Costa Reply:
dezembro 8th, 2008 at 10:43
Uma Escola Brasileira pode ser possível sim, mas em um futuro bem distante, quando as pessoas pararem de usar o que vem de fora como única opção, e passar a observar as árvores na nossa natureza
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