Bonsai na Geladeira

Acredito que todos que lêem este site sabem que eu sou carioca, nascido e criado no Rio de Janeiro, um local mundialmente famoso por suas condições climáticas, afinal só temos 2 estações por aqui, inferno e verão. O frio que sentimos é uma piada para qualquer lugar que tenha um inverno de verdade. Na temperatura que sentimos frio por aqui, o pessoal do Sul está sem camisa e indo pra praia!

Não, não estou reclamando, não gosto muito de calor mas ele é ótimo para as espécies que cultivo (como a Calliandra, o Pithecolobium, a Jabuticabeira etc.), só que como todo apreciador da natureza, eu fico fascinado pelas tais “cores outonais“, bem comuns em plantas de clima temperado (onde as 4 estações são bem definidas) e aqui no Rio de Janeiro, até possuímos algumas espécies que seguem o ciclo natural (aquele que aprendemos na escola, onde no outono todas as folhas mudam de cor e caem), mas não é a maioria… E quando estamos conhecendo as espécies utilizadas na arte do bonsai, vemos plantas lindas que seguem esse ciclo (como o Acer palmatum) e que jamais poderíamos cultivar aqui no Rio. Ora, mas porque? Será que a planta não se adapta? Não, não se adapta… Essas árvores precisam das estações definidas, precisam entrar em dormência no inverno (coisa que uma temperatura média de 27º não permitirá), precisam renovar suas folhas no outono e tudo mais, com o calor constante que temos por aqui ela nunca perceberá a mudança na temperatura, e acabará morrendo, tamanho é o desgaste.

Mas, nada é impossível, certo? Certo! É possível apreciar a beleza dessas espécies ao vivo, mesmo morando no Rio de Janeiro. Alguns bonsaístas que não se curvam diante problemas climáticos encontraram uma solução: Colocar o bonsai dentro de uma geladeira! Várias pessoas já me falaram “Mas cuidar de bonsai é difícil, tem que colocar na geladeira“, justamente por conhecerem bonsaístas que são adeptos dessa técnica.

Ahh, mas aí já é exagero! Porque não escolhem uma planta resistente ao clima da cidade?“, dirão alguns, mas não estamos aqui para julgar. Cada um é cada um, e cada pessoa tem suas espécies preferidas, eu era completamente fascinado pelo Acer palmatum, sempre quis ter um e ficava chateado por saber que ele morreria aqui no Rio, mas isso foi até conhecer o Acer tridente (prometo mostrar o meu exemplar algum dia desses), que resiste bem ao nosso calor, e é tão bonito (se não for mais) que o palmatum. O fato é, quem gosta de determinada espécie, faz de tudo para tê-la, e com um pouco (muito) de dinheiro e planejamento, é possível ter uma espécie de clima temperado, aqui no Rio de Janeiro ou em qualquer outra cidade quente.

Mas também, não é só tirar o yogurte e a manteiga de sua geladeira e colocar o bonsai lá, a umidade do ar precisa ser controlada, e a temperatura precisa ser constante. Na Chácara Tropical eles construíram uma “geladeira“, duas salas totalmente climatizadas, com temperaturas constantes de 6ºC, para ficar lá dentro, só com casaco mesmo, já que a umidade do ar é mantida, então a sensação térmica chega a ser menor que 6ºC. Além dos bonsai, eles colocam por lá Ikebanas e arranjos de flores, para prolongar a sua vida.

Abaixo estão algumas fotos dos bonsai deste espaço, com Zelkovas, Acers e outras espécies.

(mais…)

Jin e Shari

Depois de um final de semana de descanso, e com muito bonsai, vamos dar continuidade ao aprendizado desta arte milenar. Hoje falaremos sobre JIN e SHARI.

Já repararam que algumas árvores na natureza, possuem uma parte do tronco, ou um galho, morto? É basicamente isso, o Jin é um galho (ou uma ponta de um tronco) que, por algum acontecimento natural, morreu e ficou seco na árvore. Muitas vezes um raio pode queimar um galho e ele ainda permanecer ali. O Jin viria a ser como os cabelos brancos dos homens, dando um aspecto de mais idade.

Aqui temos um exemplo de dois Jins, sendo feitos, por Roberto Gerpe:

Jin

O Shari, por sua vez, é quando um tronco, por algum motivo também natural, perde parte da casca. Geralmente, quando um galho cai, seu próprio peso arranca parte da casca da árvore. Isso também é uma marca que dá à planta, uma aparência mais velha. Uma curiosidade, na Índia (de onde vem essa palavra), shari significa cinzas sagradas de um Buda.

E aqui uma foto de um Shari, feito por Luciano Benyakob:

Ora, e como é possível fazer isso? Não é um processo tão complicado, mas ainda assim eu considero uma técnica avançada, pois é preciso ter uma visão estética apurada para conseguir fazer um trabalho bonito. Basicamente você precisa raspar a casca do tronco, ou galho, por completo, usando alicates, canivetes ou alguma ferramenta que você ache melhor.

O ideal, para que se transmita uma imagem de idade mesmo, é que sejam feitas ranhuras no Jin, por exemplo, destacando os detalhes das fibras do galho “morto“. Depois de remover a casa, deixe planta descansar um pouco, e mais ou menos um mês depois faça a primeira aplicação de Lime Sulphur (infelizmente os bonsaístas ainda não “traduziram” esta palavra, então em lojas especializadas você só vai conseguir comprar informando este nome mesmo), que é uma mistura de Cal virgem com Enxofre (com um cheiro bem desagradável) e serve para proteger o jin/shari de bactérias, do processo de apodrecimento, e ainda confere uma coloração esbranquiçada ao galho/tronco.

Um detalhe bem importante, e que muitas vezes não prestamos atenção: Onde for feito o jin/shari, haverá uma interrupção no transporte da seiva, ou seja, aquela parte não receberá mais alimento. Portanto, quando for utilizar essa técnica, tenha sempre isso em mente, pois você pode, sem querer, interromper o fluxo da seiva para alguma parte importante do seu bonsai.

Yamadori

Conforme prometido hoje vamos falar um pouco sobre o Yamadori. Afinal, o que é isso? Um estilo de bonsai? Uma técnica avançada?

Yamadori nada mais é do que uma técnica, uma forma de se obter um bonsai, assim como o Misho (plantio por sementes), a estaquia (obtenção de mudas por estacas), a alporquia (ou mergulhia, que permite a obtenção de uma muda já com raízes a partir de outra árvore), a diferença é que no Yamadori você faz a coleta na natureza, removendo a árvore inteira com o máximo de raízes possíveis.

É a melhor técnica que existe para se conseguir um bonsai adulto. Lembram do Karatê Kid? Quando o Daniel San vai até aquele penhasco, e coleta um bonsai para o Mestre Miyagi… Pois é, aquilo é um Yamadori (um tanto quanto arriscado, mas ainda assim).

Em sua essência, o Yamadori é a busca de árvores “anãs“, bonsai já prontos na natureza, árvores que mesmo contra a chuva, sol, vento, conseguiram sobreviver mantendo uma forma compacta, com galhos retorcidos e uma aparência bem envelhecida.

No Brasil, por cultivarmos bonsai há muito pouco tempo, essa é a única maneira de conseguirmos plantas nativas com 20, 30 ou até 50 anos de idade. Aposto que vocês estão pensando que isso é crime, afinal, mesmo que seja retirado apenas um exemplar, você está “desmatando” e removendo aquela árvore de seu habitat natural, mas veja bem, pelas leis brasileiras você não pode remover uma árvore assim sem mais nem menos, por isso em nosso país o Yamadori é feito em árvores existentes dentro de propriedades particulares, com autorização do proprietário, e em muitos casos também, fazemos Yamadori em terrenos onde serão construídos prédios, afinal as árvores seriam removidas de qualquer forma.

Para a maioria das pessoas o Yamadori chega até a assustar, já que muitas vezes coletamos árvores grandes (com mais de 1 (um) metro de altura), e todo mundo tem a concepção de que bonsai é a arte de cultivar árvores em miniatura, mas o Yamadori deixa claro que bonsai é muito mais que isso, bonsai é a arte de recriar a natureza em um vaso, reduzindo o tamanho mas nem sempre tão drasticamente e nem sempre com aquela aparência delicada que muitos bonsai possuem.

Remover uma árvore da natureza não é tão simples quanto parece, é necessário ver se a planta está pronta para ser retirada, como estão suas raízes (o ideal é não danificar as raízes capilares, por onde a planta se alimenta) e, mesmo em um país como o nosso que não possui estações bem definidas, é melhor que a árvore seja retirada na Primavera. Com o auxílio de ferramentas “pesadas“, cava-se uma espécie de trincheira ao redor das raízes da árvore, para que a mesma seja removida com o torrão de terra intacto (ou o mais próximo possível disso). A poda de galhos/ramos pode ser feita antes ou depois da remoção, mas é bom que se faça antes (algumas semanas antes) da coleta, para diminuir o stress da árvore.

Depois de removida, é preciso envolver as raízes com panos bem úmidos, para evitar que as raízes sequem ou fiquem danificadas, e quando voltar para casa, realize o transplante, podando um pouco das raízes e plantando a árvore em um substrato com muito boa drenagem (areia, pedriscos etc.), a partir daí é só esperar que ela se recupere e depois inicie o trabalho de estruturação e estilização da árvore.

O Yamadori não é uma técnica para iniciantes, mas é algo bem interessante para que vocês comecem a pesquisar, uma espécie de Projeto Futuro. Aqui no Estado do Rio de Janeiro, temos um grande praticante do Yamadori, que é o Marcelo, de Cabo Frio. Ainda não o conheço pessoalmente, mas só de entrar no site dele já podemos ver o grande artista que é.

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